Dez afinações de Guitarra

Quando as guitarras viajaram pelo mundo fora, iam sem manual de instruções. Muitos músicos não sabiam qual era a afinação canónica e inventaram as suas, acabando normalmente com acordes completos, porque soavam melhor assim.

A afinação standard Mi-Si-Sol-Ré-Lá-Mi (ou E-B-G-D-A-E), da corda mais aguda para a mais grave, foi subvertida, alterada, modificada, permitindo uma abrangência melódica e harmónica maiores.

Isto influenciou a forma como os guitarristas tocavam guitarra, e a própria sonoridade da música que faziam. Usando acessórios, como espigões de caminhos de ferro ou garrafas de vidro, criaram técnicas e estilos que continuam a ser aplicados até hoje. É claro que é preciso ter atenção ao estado das cordas e ao tipo de encordoamento que querem usar. Se vão colocar as cordas graves mais do que um tom abaixo do tom normal, um jogo de cordas com um maior calibre será o mais indicado.

As possibilidades são imensas e há músicos que gostam de inventar afinações novas, porque lhes permite tocar melhor sozinhos, ou porque há uma cor diferente nos acordes que fazem.

Vamos desafinar a guitarra em dez afinações alternativas (viram o que fizemos aqui?) e descobrir novas formas de tocar guitarra.

 

Drop D –  D A D G B E

Esta é uma das afinações mais populares para quem gosta de ter um pouco mais de peso nos acordes. Basta baixar o Mi grave para Ré e ficamos com uma quinta perfeita nas duas primeiras cordas, e uma predisposição para tocar na tonalidade de Ré. Os Rage Against the Machine no seu tema icónico “Killing in the name of” usam esta afinação, assim como os Foo Fighters no “Everlong”, Jeff Buckley no tema “Grace”… a lista é interminável e nota-se uma predominância nos temas dos anos 90.


Open D – D A D F# A D

A primeira afinação desta lista que é num acorde maior aberto. Muito usada pelos guitarristas clássicos do blues do Delta do Mississipi, foi encontrando o seu espaço junto de vários guitarristas sob essa influência e na folk americana. Joni Mitchell usa-a no seu clássico “Big Yellow Taxi”, Bon Iver na “Re:Stacks”, Bob Dylan na  “Oxford Town” e outras. É excelente para tocar em acordes abertos, variando apenas os graves e adicionando uma nota aqui e ali para criar melodias dentro da tonalidade.


Open G – D G D G B D

O “Start me up” dos Rolling Stones é nesta afinação (segundo parece, nem usam a corda mais grave na guitarra), não fossem eles influenciados pelos blues do Mississipi. É uma afinação muito boa para tocar com slide e tem uma sonoridade muito particular, que cativou bandas como Led Zeppelin, músicos como o Eric Clapton e é omnipresente na obra de Ry Cooder.


Quartas – E A D G C F

O princípio desta afinação é criar intervalos de quarta entre as várias cordas. Para isso, sobe-se o Si para Dó e o Mi agudo para Fá. O grande utilizador desta afinação é Stanley Jordan, que diz que torna a disposição das notas no braço mais lógica e simples. Mas é melhor ver como.


Nashville – E A D G B E

Não é propriamente uma afinação alternativa, mas um encordoamento alternativo, em que se substituem 4 cordas pelas suas equivalentes mais agudas, normalmente retiradas de um jogo  de uma guitarra de 12 cordas. As cordas a substituir são as quatro mais graves (Mi, Lá, Ré, Sol) que são depois afinadas uma oitava acima das cordas originais. Os Rolling Stones voltam a ser uma referência nesta lista, com uma música chamada “Wild Horses”, mas os Pink Floyd deram-se ao trabalho de usar esta afinação na “Hey You” e o Elliot Smith, nesta “Tomorrow Tomorrow”.


DADGAD

O nome já diz as notas a usar, mas esta variação de Open D é das afinações mais comuns entre músicos que gostam de dar um toque celta ou mesmo árabe às suas composições. Jimmy Page, dos Led Zeppelin, era um grande fã desta afinação, que é a base da conhecidíssima “Kashmir”.


Nick Drake – C G C F C E

Nick Drake é conhecido pelas suas afinações alternativas. Em toda a sua discografia não deve haver uma música em afinação normal, mas isso era uma das razões que tornavam o seu som distinto e original. Esta era a sua favorita e esperamos ter ajudado alguns de vocês a perceber porque é que é tão difícil tirar de ouvido músicas como esta “Place to be”, sem saber a afinação original. Outra das suas afinações favoritas era G-G-D-G-B-D.


Open C – C G C G C E

John Fahey usa esta afinação no seu tributo a Mississippi John Hurt, e tem uma cor bluesy, se é para aí que estão virados. Outro músico que toca nesta afinação é John Butler, que a aplica na sua guitarra de 12 cordas. Na “Ocean”, Butler usa-a com um travessão no quarto traste.


Open A –  A E A D F# B

Esta afinação é tão grave que dá dores de barriga. Ideal para músicos da pesada, é usada por bandas como os Slipknot, e é muito popular entre guitarristas de sete cordas. Para soar em condições, precisam de ter um encordoamento tão grosso como cabos de um navio.


Mark Kozelek – várias

Como o Nick Drake, Mark Kozelek dos Red House Painters e Sun Kil Moon, gosta de usar afinações diferentes. No site blueguitar.info podem encontrar algumas tablaturas pelas afinações usadas por este músico. Uma das suas músicas mais épicas, “Duk Koo Kim” tem uma afinação estranha (C# G# C# Eb Bb C) mas que soa lindamente na execução deste músico muito especial.


São apenas algumas sugestões para experimentarem outro tipo de sonoridades e técnicas nas vossa guitarra. Isto é só a ponta do icebergue do mundo maravilhoso das afinações alteradas, e podem sempre inventar as vossas. Recomendamos que tenham atenção ao estado das cordas e do braço da  guitarra, para não as partirem durante as vossas experiências.

O Salão Musical de Lisboa tem jogos de cordas, afinadores e transpositores para desafinarem e afinarem a vossa guitarra à vontade. Façam-nos uma visita.

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Comentários

Comentários

  • António Rosa 5 Janeiro, 2018 at 15:18

    Muito bom artigo,parabéns!
    Algumas notas para já sobre a afinação Drop-D:
    Esta é uma afinação que aparece também em guitarra clássica. Não é habitual ver afinações alternativas na guitarra clássica, mas esta aparece, embora raramente. Tenho ideia de ser usada por Francisco Tárrega.
    Também algumas peças populares brasileiras, nomeadamente chorinhos, usam esta afinação.
    Eu gosto de usar. Realmente tende a puxar pela tonalidade de Ré. É muito interessante que baixar um tom o bordão de Mi é suficiente para dar um baixo muito poderoso com a corda solta.
    Tem o condão de criar alguma curiosidade em quem só toca com a afinação standard, uma vez que temos de compensar quando se pisa a 6ª corda.

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